relação entre turismo internacional e câmbio nunca foi tão visível quanto no atual ciclo econômico. À medida que a alta temporada de viagens se aproxima, impulsionada por grandes eventos esportivos, como a Copa, o comportamento do turista brasileiro no exterior se torna um termômetro claro da economia: quando o dólar sobe, o consumo muda; quando cai, ele explode.

Os números recentes ajudam a dimensionar esse fenômeno. Apenas no primeiro trimestre de 2026, os brasileiros gastaram cerca de US$6,04 bilhões em viagens internacionais, o maior valor da série histórica do Banco Central e uma alta de 21,9% em relação ao ano anterior. O dado chama atenção não apenas pelo volume, mas pelo contexto: esse crescimento ocorreu em um momento de valorização do real frente ao dólar, o que aumentou o poder de compra dos viajantes.

Esse ponto é central. O turismo internacional brasileiro é altamente sensível ao câmbio, talvez mais do que em outros países. Quando o dólar recua, viajar deixa de ser exceção e volta a ser um projeto possível para a classe média. O resultado aparece imediatamente nas estatísticas: mais passagens compradas, maior permanência no destino e, principalmente, aumento no consumo.

Por outro lado, em cenários de dólar valorizado, como o que pode ocorrer em ciclos de instabilidade global ou eventos de grande demanda internacional, como a Copa, o efeito tende a ser o inverso: o brasileiro viaja, mas consome menos. A decisão de viajar já foi tomada, muitas vezes com antecedência, mas o comportamento no destino muda. Trocam-se restaurantes por mercados, hotéis por acomodações alternativas e compras por experiências mais controladas.

Outro aspecto relevante é a forma de pagamento. O avanço dos meios digitais transformou o padrão de consumo do turista brasileiro. Em 2025, os gastos com cartões no exterior ultrapassaram US$8,2 bilhões apenas entre janeiro e julho, com forte concentração na Europa e nos Estados Unidos, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). Além disso, contas internacionais em dólar e fintechs ampliaram o acesso à moeda estrangeira, permitindo planejamento cambial prévio, o que suaviza, mas não elimina, o impacto da valorização da moeda americana.

Esse movimento revela uma mudança comportamental. O brasileiro não apenas viaja mais, mas também está mais sofisticado financeiramente. Ele compara taxas, antecipa câmbio e diversifica meios de pagamento. Ainda assim, a elasticidade do consumo permanece evidente: o câmbio continua sendo o principal determinante do quanto se gasta no exterior.

Com a proximidade da Copa do Mundo, por exemplo, esse cenário tende a se intensificar. A combinação de alta demanda, preços inflacionados nos destinos e possíveis oscilações cambiais cria um ambiente desafiador para o turista brasileiro. Mais do que decidir viajar, será preciso decidir como viajar.

No fim das contas, o câmbio não define apenas o destino, define o comportamento. Entre duty free e controle de gastos, entre parcelamento e planejamento, o brasileiro segue adaptando seu consumo a uma variável que, embora externa, influencia diretamente suas escolhas. E, em tempos de Copa, essa equação fica ainda mais evidente: viajar continua sendo prioridade, mas gastar — isso depende do dólar.

*Por Taisa Bilecki - Head de Câmbio do Banco Braza

Fonte: VCRP

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