Na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), o Natal tem cheiro de história, fé e arte. A cada fim de ano, o brilho das luzes e o encanto do presépio anunciam a chegada de um tempo especial. À frente dessa tradição está Luiz Onivaldo Bizuti, o “Seu Bizuti”, 75 anos, preparador técnico das disciplinas de Fisiologia, Bioquímica e Farmacologia. Colaborador da Famerp há 56 anos, ele é mais do que um funcionário dedicado — é o guardião dessa história e de uma das mais belas tradições da instituição.

Quem conhece “Seu Bizuti” sabe que nada escapa ao seu olhar criativo. Nas suas mãos, sementes viram barquinhos, brinquedos quebrados ganham nova vida e potinhos descartáveis se transformam em delicados vasos. Um cavalinho encontrado no lixo hoje exibe novas crinas e cauda — símbolo da alegria e da capacidade de transformação que o artista imprime em cada detalhe.

“Tudo pode se tornar arte. Basta olhar com o coração”, costuma dizer o artista, que há mais de meio século transforma o cotidiano da Famerp em poesia visual.

Ao lado de Bizuti está Valdir Santos da Silva, preparador auxiliar, que participa ativamente da montagem. “A gente trabalha com cuidado e carinho. Cada detalhe importa, porque queremos que o presépio transmita paz e esperança a todos que passam por aqui”, afirma Valdir, com a mesma dedicação de quem já faz parte dessa tradição há décadas.
Entre risadas, histórias e lembranças, os dois transformam o trabalho em um verdadeiro ato de fé e amizade.

A origem do presépio da Famerp

A tradição do presépio da Famerp nasceu em 1994, ano da estadualização da faculdade. Naquele Natal, a professora doutora Dorotéia Rossi da Silva Souza presenteou a instituição com um presépio. Há 31 anos, o gesto acendeu uma paixão que nunca mais se apagou. A cada dezembro, o artista monta a cena do nascimento do Menino Jesus, convidando alunos, professores e funcionários a mergulharem no espírito natalino.

Mas a semente dessa tradição é ainda mais antiga. Desde 1968, quando a faculdade foi inaugurada, os colaboradores — entre eles, Bizuti e Valdir — já enfeitavam os corredores com simplicidade e criatividade, celebrando o nascimento de Jesus.

De lá pra cá, o presépio cresceu, ganhou novos elementos e significados. Entre as preciosidades está a Sagrada Família que pertenceu à avó do professor Sidnei Pinheiro, docente de Bioquímica, falecido durante a pandemia de Covid-19. As imagens, com mais de 60 anos, são relíquias que atravessam gerações.

Outro destaque é o Menino Jesus doado pela esposa do professor doutor Antonio Carlos Brandão, que trouxe ainda mais simbolismo à obra. Entre anjos e estrelas, há também a Capela dos Anjos, um dos espaços mais delicados do presépio, que abriga pequenos bibelôs das filhas de Seu Bizuti — anjinhos de cerâmica muito comuns nas casas brasileiras dos anos 1990, agora transformados em guardiões do Natal da Famerp.

Símbolo de humildade e esperança

Montado com materiais simples — galhos, folhas secas, tecidos e figuras infantis —, o presépio criado por Bizuti representa muito mais do que uma cena religiosa: é um manifesto sobre a grandeza da simplicidade.

“O presépio mostra que a verdadeira grandeza não está nas riquezas, mas nas coisas pequenas, na humildade de Maria e José, na entrega e no amor”, reflete o artista.

A simplicidade da obra, segundo ele, é o que mais encanta: “Jesus nasceu pobre, numa estrebaria, e isso nos lembra que a salvação veio de forma humana, simples e acessível a todos”.

A montagem do presépio da Famerp se tornou um evento esperado por toda a comunidade acadêmica. Colaboradores aproveitam o momento para se reencontrar, conversar e aliviar a rotina. Alunos visitam o espaço para se inspirar e lembrar que o fim do ano se aproxima — e, com ele, o reencontro com suas famílias.

“O presépio é um respiro dentro da correria da vida. Ele traz paz, fé e união”, comenta Bizuti. “Manter esta tradição é manter viva uma mensagem de fé e esperança”, reforça Valdir, enquanto ajeita figuras ao redor da manjedoura.

Primeira capela de Rio Preto

Entre as novidades da obra, um detalhe chama a atenção dos visitantes: uma maquete da primeira capela de Rio Preto, construída por Bizuti com materiais recicláveis. A peça reproduz a pequena igreja erguida em 1855, no local hoje considerado marco zero da cidade.

Essa capela original deu lugar à Igreja Matriz, iniciada em 1912 e concluída em 1930, com bênção solene em 1914. Posteriormente, a Matriz passou a ser chamada de Antiga Catedral, que seria demolida para dar lugar à atual Catedral de São José, concluída em 1932.

Ao incluir a capela no presépio, Bizuti presta uma homenagem à história de São José do Rio Preto e à fé que acompanha seu povo desde o nascimento do município.

Em cada detalhe do presépio, Bizuti e Valdir renovam o convite à simplicidade — lembrando que o Natal é, antes de tudo, sobre fé, amor e a beleza de manter viva uma tradição.

Fonte: FAMERP

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